Corpo Elétrico traz para tela o universo gay e proletário

Arte Pajuçara

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Corpo Elétrico traz para tela o universo gay e proletário

Em exibição na sala de cinema do Centro Cultural Arte Pajuçara, confira abaixo a crítica de Giovanni Rizzo, do site Observatório do Cinema.

Cinema é, antes de qualquer coisa, uma experiência, onde o espectador passa a receber uma série de sentimentos e sensações presentes numa obra exibida numa sala escura. Cada filme propõe certo tipo de experiência, os mais comuns fazem com que o público saia com um sentimento de completude, vendo uma transformação perfeita numa obra cheia de conflitos extraordinários. Algumas partem de outro princípio, buscam fazer dessa experiência uma relação única, a partir de algo que não necessariamente necessita de um clímax, que pode muito bem estar pautado por reinterpretações estéticas da vida comum. Essa segunda é a abordagem de Corpo Elétrico, uma visão cinematográfica de um cotidiano comum de um homem gay, operário e seu dia a dia na cidade de São Paulo.

Assim, o longa distancia-se de uma narrativa clássica, baseado numa estrutura de cronologias e da necessidade de oferecer informações que teoricamente avancem a história em níveis emocionais e de tensão. Também como seria possível enquadrar a trajetória de Elias nas regras bem estabelecidas do cinema classicizante? Corpo Elétrico é justamente sobre esse não enquadramento num dia a dia pautado pela normatividade. Sobre corpos que necessitam extravasar, precisam estar em constante movimento para serem de fato plenos.

O longa de estreia de Marcelo Caetano acompanha o cotidiano desse personagem interpretado por Kelner Macêdo. Um paraibano que vive há muito em São Paulo, trabalhando numa fábrica de confecção de roupas na região do Bom Retiro, vivendo seu dia a dia, sonhando em ser um estilista, mas estando realmente interessado em seus encontros noturnos com seus amigos, com seus amantes, nas festas que participa, ou na sua própria intimidade. É nesses momentos que Elias pode verdadeiramente mostrar toda sua energia, viver numa plenitude que não se encaixa nas pequenas regras das oito (ou mais) horas registradas na carteira de trabalho.

O longa convida o espectador a entrar no fluxo que é a vida de Elias. Marcelo Caetano é inteligente ao construir isso como se estivesse concebendo uma nova dimensão, a vida do protagonista e seus encontros são filmados como se estivessem num outro plano, como se funcionassem através de uma lógica própria. Muito disso está ligada a maneira como o cineasta filma essa trajetória. Caetano faz com que as situações encontradas por Elias sejam sempre belas, presentes em planos bem trabalhados, com cores e composições bem planejados. Um longa que faz o comum apresentar-se como belo. A vida fora da fábrica é prazerosa, é sensual, e isso está na estética do filme.

Essa amostragem de um mundo outro pode ser vista como uma inserção de um espectador externo num mundo queer, num universo gay, mas mais do que isso, Corpo Elétrico revela uma beleza nos encontros casuais, nas diversões mundanas e baratas. O longa apresenta o mundo comum como se fosse algo inebriante. Se ali há uma reafirmação de identidade e diversidade, também há um prazer pela vida. Quando um grupo de amigo está no ônibus cantando um pagode dos anos 1990, há ali uma elevação de algo totalmente popular inserido numa obra que contém seu rebuscamento estético e intelectual. Corpo Elétrico borra as fronteiras entre o que é baixa e alta cultura, tudo se torna uma grande experiência.

Se evidentemente sua temática já chama atenção por si só, nessa conquista de representatividades, Corpo Elétrico não deseja ser apenas um “lacre”, não deseja possuir suas qualidades apenas pela sua potência política. E colocar Mc Linn da Quebrada declamando seu funk de ostentação homossexual num cinema é um grande símbolo de afirmação. O longa consegue dosar sua consciência social com seu interesse pelo âmbito individual de seu protagonista. Um homem que deseja se encontrar através dos outros, que nas suas perambulações almeja extravasar suas pulsões libidinais, suas pulsões de vida.

Corpo Elétrico é uma obra de corpos em movimentos, não só movimentações urbanas/geográficas, onde aqueles personagens residem numa São Paulo periférica em que o prazer, o encontro e a plenitude possam ser encontradas nesses locais. Mas movimentações afetivas, uma busca pela troca de experiências, por se conectar fisicamente e mentalmente com seres como o próprio Elias. O protagonista, quando não é filmado estando em um desses momentos, está narrando outro acontecimento, em longos planos onde a palavra surge com importância, uma verborragia munida de verdade, de como se fala nas ruas, mas também embutidos de um eterno desejo de estar nessas situações, de querer experimentar sempre episódios onde toda essa energia pode ser extravasada. Corpo Elétrico consegue unir o cinema da imagem com o cinema da fala, tradições distintas, mas que aqui servem para o cineasta explorar esse constante desejo do protagonista.

O longa é uma obra sobre corpos que possuem uma amperagem maior que o circuito elétrico pode resistir, onde essa energia deve ser constantemente liberada. Elias é potente demais para gastar suas horas e sonhos apenas com seu trabalho, apenas com um cotidiano opressor e suas respectivas convenções. Aqui não se vê um trabalho demonizado, marcado por sistemas burocráticos que comprimem os personagens, no filme é mais como um mal necessário, mas acima de tudo, mais um espaço a ser conquistado, com mais pessoas que podem se conectar e desenvolver uma relação afetiva, uma troca energética.

Se o mundo apresenta-se de forma inebriante, o sexo é ainda mais corpulento, mas nunca filmado de forma erótica. O corpo gay é filmado com beleza, numa conexão quase transcendental. É ali, onde fluídos percorrem e a pele se toca, que Elias, finalmente, liberta sua energia. Local em que os encontros se dão por completo, e os personagens podem compartilhar seus desejos, sua visão de mundo e toda sua fisicalidade. Em suma, corpos que se movimentam um em direção ao outro, e que por fim, tornam-se um só.

Na primeira vez que Elias narra seus desejos, suas aventuras, o protagonista diz estar sonhando com o mar. Essa simples fala resume bem tudo o que cerca Corpo Elétrico, uma busca constante por um bom condutor de eletricidade, uma itinerância em busca daquilo que faz com que as energias sejam de fato liberadas. Corpo Elétrico não poderia ser mais do que uma forma totalmente potente de experimentar essa constante procura por uma libertação dos sentidos e das energias.

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